Por Paulo Madeira *
O desequilíbrio climático está aí. Ver isto não é paranóia nem adesão a crenças fantasiosas, apocalípticas, escatológicas. Estamos, sim, com uma “batata quente” nas mãos.
É, pois, premente deter o progresso desse calor desarrumador de geografias climáticas e, a partir delas, de potencialmente explosivas geografias políticas. Esta é uma situação que impõe mudanças, estejamos ou não motivados para fazê-las. A menos que, como num sonho mágico, conseguíssemos, sem sacrifícios, esfriar essa “batata”…
Mas, não sendo isto tecnicamente realista, resta-nos, de todos os modos sensatos, tentar conter o calor em níveis não destrutivos. Vai ser preciso atuar, educando, sobre bilhões de pessoas pelo Mundo afora. Fazê-las modificarem hábitos. Tarefa nada fácil. Mas, não impossível. Mesmo porque será fazer ou morrer…
Demandará algum desconforto. Bem conhecido, aliás, de vez que tantas pessoas, em todos os tempos e lugares, já o experimentaram. E outras, por aqui, neste momento, estão conhecendo-o, por força da crise econômica mundial.
Mas que “desconforto” é esse? Ah, ter de reduzir consumos excessivos. Baixar padrões de vida. O famoso way of life dos ricos. Só isso. Os que vivem esbanjando, precisarão baixar a bola, passarem a viver sem tantos supérfluos. O que não será nenhuma calamidade, vamos combinar…
Veja este emblemático exemplo. A sociedade dos cardiologistas americanos anunciou, no final de agosto de 2009, que a epidemia de obesidade deles melhorará muito se e quando eles simplesmente reduzirem para um terço a quantidade de açúcar que consomem hoje. Ora, claro que isto não tornaria suas vidas amargas. Elas continuariam agradavelmente adocicadas. E seguramente menos enjoativas. E, ainda melhor, mais saudáveis! Portanto, nem sempre o diabo é tão feio e tão mau como se poderia pensar… Às vezes ele é até mais ajuizado, como neste caso…
O efeito estufa é uma realidade assustadora
Moral desta estória: Hábitos podem, e às vezes precisam, ser modificados! Neste exemplo, para melhorar a saúde individual. E para melhorar a saúde do Planeta…? Por tabela, a coletiva? Claro que, para isto, haverá outros hábitos a modificar. E claro que não será tão simples. Afinal, é enorme a quantidade de indivíduos que não mudam, nem por vital interesse pessoal, e continuam comendo excesso de açúcar, e morrem…
Quanto mais quando os resultados da mudança estarão diluídos e não tão egoística e imediatisticamente visíveis. Será que a comunidade planetária terá o mesmo comportamento mórbido dos comedores de açúcar, mesmo depois de conscientizada sobre as consequências?
Ou ela conseguirá deixar de poluir e desperdiçar água, por exemplo? Parece tão factível quanto reduzir o consumo de açúcar. Se o calor mudar o regime de chuvas, desertificando vastas extensões de territórios, poderemos ficar com ainda menor quantidade de água doce.
E aí as sociedades humanas precisarão dispor-se a transferir recursos, principalmente os que estão tendo uso abusivamente predatório, para aplicá-los onde eles forem prementemente vitais.
Hoje, comunidades ricas desperdiçam-nos, enquanto outras, pobres, morrem à míngua deles. Será que o aquecimento global que, atenção!, não é castigo de Deus!, Funcionará como um bom freio de arrumação que melhorará isto? E levará os muito ricos a abrirem mão de seus paradoxais ‘supérfluos indispensáveis’? Como deveriam fazer com os anormais ‘supérfluos prejudiciais’, como o açúcar?
Se não o fizerem por solidariedade, ao menos precisarão criar juízo e fazerem por MEDO. De quê? De conflagrações de hordas de refugiados climáticos esfomeados.
Quem sobreviver (ao calor) verá…
* Paulo Madeira é cronista,
licenciado em filosofia, psicologia
e sociologia
pela UFRJ – Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
É autor de
Incertas Certezas
e Crenças Incríveis. www.thesaurus.com.br
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Coluna Palpites Irresponsáveis (Pitacos)
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